Textos


 Análise do Discurso

Parte 6 de 10

Nietzsche, o rebanho e a santa ao fundo

 

O filósofo bigodudo, visto como louco, ganhou fama de popstar. A frase “Deus está morto” virou camiseta, caricatura e legenda de rede social. Pouca gente sabe de onde ela vem: aparece em A Gaia Ciência, dita por um personagem, o “homem louco”, que corre pela praça com uma lanterna de dia. A loucura real de Nietzsche veio depois, em 1889, quando ele teve um colapso em Turim. Misturar as duas coisas é um atalho popular.

 

O que o professor, evoca é outra ideia: a moral de rebanho, que Nietzsche trata em obras como Além do Bem e do Mal. Rebanho, ali, é o conformismo: seguir o grupo sem se perguntar por quê, aceitar a moral que vem pronta e chamar isso de virtude. A imagem tem força porque ninguém quer se sentir ovelha.

 

O efeito é curioso. Muita gente veste a camiseta dele para dizer “eu não sigo ninguém às cegas”. E hoje “gado” é a palavra que qualquer lado joga no outro. Rebanho e gado têm algo em comum: quem usa o insulto quase sempre acha que está fora do grupo que descreve. Deixo a política de lado e fico só com a observação: o xingamento funciona como um espelho que ninguém quer olhar.

 

Agora a tensão que quero que você veja. Nietzsche foi um crítico feroz da moral cristã. E o cenário do vídeo, como vimos, apoia a confiança em uma imagem religiosa. Então, o autor evocado para dizer “não seja rebanho” é o mesmo que desconfiava da moral que o cenário sugere. Isso não invalida o professor, mas mostra como os nomes são chamados pelo som, e não pelo conjunto.

 

Há mais dois pontos a favor de quem quer pensar com Nietzsche, sem torcer o que ele disse.

 

Conformismo e neutralidade não são a mesma coisa. O rebanho de Nietzsche segue a maioria. Quem se mantém neutro, às vezes, não segue ninguém, e às vezes se esconde na multidão justamente para não ser notado. São casos diferentes, e o vídeo os trata como um só.

 

Nietzsche desconfiava do olhar sem ponto de vista. Na Genealogia da Moral, ele critica a ideia de um conhecedor puro, sem interesses, e defende que só se vê de alguma perspectiva. Isso pode ser lido a favor do professor: ninguém é neutro de verdade. Mas pode ser lido contra a fórmula dele também: se ninguém olha de lugar nenhum, também não dá para dizer que o outro está com medo só porque não escolheu o seu lado. Cabe a cada um decidir qual leitura prefere.

 

De onde vem a ideia de rebanho. Ela aparece em mais de uma obra. Em A Gaia Ciência (1882), no aforismo 116, a moralidade é descrita como o instinto de rebanho no indivíduo. Em Além do Bem e do Mal (1886), no aforismo 202, Nietzsche trata abertamente da moral de rebanho. E na Genealogia da Moral (1887) ele distingue a moral nobre da moral dos escravos. Quando alguém diz “gado” a quem pensa diferente, quase nunca usa a palavra nesse sentido: é xingamento. Mas há uma semelhança real que vale notar: na moral de rebanho, o indivíduo segue as vontades do grupo sem examiná-las.

 

Um cuidado comigo mesmo. Dizer que o isento, por se recusar a escolher, “se aproxima do espírito livre” de Nietzsche é uma leitura possível, mas é só leitura. O “espírito livre” é um conceito dele, e ficar fora de uma votação não basta para fazer alguém livre: pode-se recusar por convicção ou por comodidade. O mesmo vale para o professor. Escolher um lado não prova que a pessoa pensou, e recusar todos também não prova.

 

O que fica é que o nome de Nietzsche, no vídeo, serve como uma mensagem sem texto: você pensa por conta própria, então não fique em cima do muro. Mas é uma ponte construída pela emoção. Para atravessá-la com os olhos abertos, falta o que vem no próximo episódio: o exame da tese, sem os autores.

 

Para pensar: quem segue a maioria e quem recusa todos os lados: os dois são rebanho? Ou nenhum deles?

Eder Rizotto
Enviado por Eder Rizotto em 03/11/2026


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Imagem de cabeçalho: raneko/flickr