


Se há um autor que o professor poderia citar com todo direito, é Dante. E o paradoxo é que, a citação fica vaga, quando o poema tem uma passagem que parece escrita para o tema.
Está no Canto III do Inferno. Depois do portão que manda abandonar toda esperança, Dante e Virgílio encontram uma multidão de almas que gemem e gritam ainda do lado de fora do inferno propriamente dito. Dante pergunta quem são. Virgílio responde que são os que viveram sem infâmia e sem louvor: pessoas que nunca se comprometeram com nada. Estão misturadas aos anjos que, na rebelião, não ficaram nem com Deus nem contra Ele, só consigo mesmos.
O céu os expulsa para não perder a beleza, e o inferno profundo não os recebe, porque os condenados teriam algum motivo de orgulho diante deles. Correm nus atrás de uma bandeira que gira sem parar, picados por vespas e moscas. E Virgílio resume o desprezo num verso famoso: non ragioniam di lor, ma guarda e passa. Não falemos deles, olha e segue.
Repare no que isso tem de curioso. É forte, é duro, e combina com o tema do vídeo. Mas não é a frase que circula.
Você já deve ter lido ou ouvido: “Os lugares mais quentes do inferno são reservados àqueles que, em tempos de crise moral, mantêm sua neutralidade.” Atribuem a Dante. Não está em Dante. A Biblioteca John F. Kennedy registra que essa era a citação favorita do presidente, que acreditava ser de Dante, e pesquisadores a rastrearam até um livro de aforismos de 1944. É uma interpretação posterior, bonita, mas inventada, do que Dante escreveu. Se o vídeo a usou, vale checar se foi essa.
Três cuidados.
Primeiro: Dante não trata de “neutros” como falamos hoje. Os indecisos do Canto III são os que nunca se comprometeram, por covardia ou por apatia. A tradição costuma ver no verso 60 uma alusão a alguém que fez “por covardia a grande recusa”, e muitos comentadores identificam ali o papa Celestino V, que renunciou ao cargo. Há debate. Seja como for, o alvo é a omissão diante de uma escolha, e não a imparcialidade de um juiz ou a prudência de quem ainda não sabe o suficiente.
Segundo: quem decide quem vai para o inferno? Quando escrevi aos amigos que Virgílio “relata quem Deus pôs ali”, eu estava descrevendo o efeito sobre o público, e preciso corrigir o ar de certeza: quem escolheu cada alma foi o poeta. Dante, que era político, pôs no inferno muitos inimigos pessoais e adversários de Florença. O livro é obra de um autor com partido e rancores, não um relatório divino. No imaginário coletivo, porém, tende a ficar a impressão contrária: de que Dante estava só reportando uma sentença já dada.
Terceiro: indecisos não são “os mais castigados”. Dante não diz que a pior condenação coube aos neutros. Pelo contrário, eles nem entram no inferno propriamente dito, e é essa rejeição que os humilha. Às vezes se acrescenta que a falta deles foi omitir-se diante do “mal absoluto”. Isso também não está no canto: o que Virgílio descreve é quem nunca se comprometeu com nada. Fica então a pergunta que cabe ao leitor: o momento em que vivemos é uma escolha entre o bem e o mal absolutos? Quem usa Dante para dizer que sim precisa mostrar por quê.
É aqui que a camada de autoridade aparece de novo. Quando você lembra de Dante, a religiosidade desperta e a pergunta se instala sozinha: céu ou inferno? A citação não prova a tese. Ela deixa a pessoa com medo de discordar.
Para pensar: na Divina Comédia, quem decide quem vai para o inferno, Deus ou o poeta? E isso muda o peso do que ele diz sobre quem “não tomou partido”?