


Naquele dia, acordou num horário diferente. Levantou-se da cama assim que abriu os olhos; sempre ficava alguns minutos deitado, pensando e olhando para o teto.
Seguiu direto para a sala e sentou-se. Olhou para o sofá como se nunca tivesse sentado nele; olhou os descansos de braço atentamente, alisou-os levemente e observou cada detalhe, cada mancha ou respingo que ali havia. Não se lembrou do sofá.
Tinha um prazer matutino: quando levantava, ia direto ao banheiro e barbeava-se. Gostava de tocar a pele macia do rosto depois de barbear-se. Passava a colônia que usava desde os vinte e poucos anos, penteava o cabelo e, para mantê-lo no lugar, usava vaselina.
Foi até a sala, descalço. Sentiu o piso muito frio e não se lembrou de que sempre andava calçado. O frio do chão levou-o a pensar, e até a acreditar por algum tempo, que era inverno ou que uma frente fria havia chegado à cidade.
Ligou a vitrola, uma relíquia, e colocou um long play (disco de vinil).
Uma lembrança de quando tinha cinco anos roubou-lhe a atenção. Por um longo período, tentou lembrar-se do lugar, mas não conseguiu. Em seguida, veio outra lembrança, dos dez anos de idade: corria de alguém. Não se lembrava por que corria nem de quem corria, mas a recordação trouxe-lhe angústia.
Na parede da frente, havia fotos de homens, mulheres, crianças e idosos, pessoas de todas as idades. A angústia misturou-se com a decepção de não reconhecer ninguém nas fotos.
Havia uma pessoa na cozinha. Não quis olhar para quem quer que fosse; apenas voltou a ouvir a música. Não sabia o nome da canção nem quem cantava, provavelmente algo dos anos setenta. Na velocidade da luz, pensou: “Que diferença faz? Nem sei em que ano estou!”
À sua direita havia uma janela grande, aberta, e alguém entrou por ela, sentou-se ao seu lado, alisou o sofá, olhou as fotos na parede, prestou atenção à vitrola; foi até ela, olhou o long play que estava tocando, pegou a capa. A capa do LP estava muito surrada, inteira, mas algumas partes já estavam derretendo, outras, costuradas. Voltou para o sofá com a capa e abanou o rosto com ela.
Olhando para os próprios pés, ainda nus e gelados, olhou para quem estacionara no sofá abanando o rosto com a capa e pensou: “Já está na hora de essa capa rasgar toda. Não gosto dela desde o momento em que a vi: cheira a guardado, não tem cor, com certeza, quando nasceu, já estava morta. O frio me incomoda, mas o vento que vem do movimento da capa me agrada.”
Após entrar pela janela e pegar a capa do LP para se abanar, parou de abanar, levantou-se e arrastou uma poltrona que estava em frente, velhíssima, desbotada, cheia de remendos malfeitos. O tecido era um verdadeiro trapo; parecia que fora feita de retalhos, mas não: era a quantidade de remendos que causava tal impressão. Trouxe-a para perto do sofá e, sentando-se nele, usou a poltrona para descansar as pernas.
O silêncio passeava a passos miúdos, muito timidamente, não espiava nada, apenas transitava entre eles e toda a casa. Quem estava na cozinha foi até o armário de pau-brasil, pegou três xícaras, seis colheres (pires nunca fizeram parte da casa: para que pires?, os moradores uma vez se perguntaram), descansou na mesa tudo o que pegara no armário, voltou, pegou chá de erva-cidreira, açúcar mascavo, pão preto e água quente. A mesa estava pronta.
Seguiu descalço para fora da casa, diante de um jardim bem cuidado: grama podada bem baixa, algumas flores em vasos, e a área gramada não tinha nenhuma planta. Ao lado, uma garagem com um carro dos anos quarenta, preto, grande, de para-choques cromados e vidros muito limpos. As rodas tinham uma faixa branca e, sobre o capô, havia um detalhe que não reconheceu, mas com o qual não se importou. Voltou os olhos a admirar a frente da casa.
Aproximou-se do carro, e a pintura, de tão polida, parecia um espelho: refletiu sua imagem. Observou-se cuidadosamente: as pernas não muito grossas, os braços com músculos ainda um pouco salientes, o peito largo, a postura ereta, os cabelos bem aparados, os olhos castanhos, a boca grande. Parou no detalhe do tamanho da boca e dos lábios grossos e pensou: “Será que dou largas gargalhadas?” Reconheceu de imediato uma das fotos na parede.
Retornou à sala e estacionou em frente à foto que reconhecera diante do carro. Um pavor súbito apoderou-se dele: teve calafrios, as mãos tremiam e, de tão molhadas, o suor escorria pelos dedos e se esparramava pelo chão. Medo e tristeza vieram ao seu encontro ao olhar bem nos olhos de quem estava na foto. Observou, com receio, as mãos daquele que saíra da foto e que o olhava fixamente, de corpo inteiro, à sua frente.
Tirou os pés da poltrona em que descansava as pernas, levantou-se lentamente e juntou-se aos dois, em pé. Os três observavam uma moldura que deveria ter uma foto, porém, naquele momento, só a moldura. Os três olhavam para baixo, ou para a moldura. Todos, em pensamento, remoíam a mesma pergunta: “Onde está a foto que fica sempre nessa moldura?”
Após a angústia e o medo passarem, seguiu para a mesa, não para comer ou beber, apenas para se distanciar dos dois. Mas não adiantou: aquele que surgira à sua frente seguiu para a mesa, sentou-se à direita, pegou um pedaço de pão preto, embebeu-o em água quente e, semeando açúcar mascavo sobre o pão úmido, comia vagarosamente para não se queimar. Comeu todos os pães, olhou para o teto e arrotou lentamente.
Apareceram mais pães, xícaras e colheres, e a mesa ficou completa, posta para quatro pessoas. Todos estavam sentados em volta dela; porém, ninguém olhava para ninguém, todos comiam e bebiam, até que um pão voou, encharcado de água quente, sem açúcar, e acertou quem estava na cozinha até pouco tempo atrás.
O alvo estava de óculos, e estes serviram de escudo, pois aquele que recebeu o pão, quente como uma brasa, só tinha um olho. Se não fossem os óculos, poderia ter ficado cego. Todavia, por algum tempo não enxergou nada, apenas sentiu o calor da água que lhe escorria pelo lado direito do rosto e parava nos lábios.
A Ave Maria de Bach começou a tocar na vitrola. Três deles se ajoelharam e oravam, com as mãos elevadas aos céus, agradecendo pelos dias vividos em tamanha solidão; paz e silêncio os alimentavam mais do que a mesa servia. Entrementes, o que não se ajoelhou saiu da mesa, chutou a cadeira, foi até a despensa, pegou seu chicote, já surrado pelos anos, e se chicoteou durante a música.
Parou de orar para limpar os óculos e lavar o rosto. Foi até o banheiro, lavou o rosto e aproveitou para lavar também os cabelos, com o xampu e o condicionador de sempre, da mesma marca desde a adolescência. Com cuidado, secou os cabelos, passou um hidratante, escovou os dentes, passou uma colônia amadeirada, saiu do banheiro e seguiu para onde os dois continuavam a rezar e se juntou a eles.
Após se flagelar, percebeu que a música continuava. A dor lhe trouxera paz, uma felicidade imensa; a felicidade domou a dor, e os olhos se abriram. Guardou o chicote, trocou a camisa por uma limpa, seguiu até a mesa, colocou a cadeira no lugar e olhou para os três, que se mantinham em suas orações. Chorou em silêncio, admirando-os. Não queria, mas uma força maior que a sua o impedia de se juntar a eles ali.
A música terminou. “Por que continuo com os pés nus?”, perguntou-se, e levantou-se como nunca se levantara, às pressas. Foi até a sala e ficou em frente à moldura. Novamente a foto estava lá. Olhou para a mesa e, com pesar, viu que ela só tinha três cadeiras.
Não sentia medo nem angústia, apenas saudade, lembranças de uma vida que, por muito tempo, fora a dois. Agora, só a solidão como testemunha dos seus sentimentos.
Não era noite nem dia. O relógio parara havia anos e anos, até porque relógio agora não faz mais sentido. O tempo não parou nem continuou: o tempo é o tempo do tempo. Ali, naquele tempo, quatro pessoas se encontram em todos os tempos da eternidade.