Textos


 Análise do Discurso

Parte 4 de 10

o que Hannah Arendt realmente escreveu

 

O vídeo cita a autora de Eichmann em Jerusalém (1963), cujo subtítulo é um relato sobre a banalidade do mal. Vou contar o que o livro diz, e depois o que a citação faz.

 

Arendt acompanhou, como repórter, o julgamento de Adolf Eichmann, oficial nazista que ajudou a organizar o transporte de judeus para os campos. Ela esperava encontrar um monstro. Encontrou, nas palavras que ela usou, alguém comum, que falava por clichês e que parecia incapaz de enxergar a realidade do que fazia. Para ela, o ponto central era a ausência de pensamento: Eichmann não pensava no que seus atos significavam para as pessoas. Não era a ideia de que “o mal está se tornando banal”, e sim a de que o mal pode ser cometido por alguém que deixou de pensar.

 

Repare na diferença. “Cumpria ordens” é uma descrição fraca. O que Arendt acusa é a recusa em pensar, e não a obediência em si.

 

Agora o que a citação faz. Ao dizer “Arendt”, “banalidade do mal”, o professor, na minha leitura, aciona uma lembrança poderosa: o Holocausto, com as imagens de filmes e documentários que cada um traz na cabeça. A pessoa sente o terror antes de qualquer raciocínio. E há a autoridade de quem fala: uma intelectual judia alemã que escapou do nazismo. Ela fugiu da Alemanha em 1933 e passou por um campo de internamento na França em 1940, antes de chegar aos Estados Unidos. Sua voz carrega um peso que não vem só de ser boa escritora.

 

Quatro cuidados para não usar Arendt com mais certeza do que ela merece:

  1. O livro foi muito criticado. Gershom Scholem, estudioso do judaísmo e amigo dela, escreveu em 1963 que a ideia da banalidade do mal soava como um slogan, e não como fruto de análise profunda. Parte da comunidade judaica também se ofendeu com o livro.

  2. A tese perdeu força para alguns historiadores. A filósofa Bettina Stangneth, usando gravações de entrevistas que Eichmann deu na Argentina, mostrou um nazista convicto e orgulhoso, longe do burocrata apagado que Arendt viu no tribunal. Há quem defenda que Arendt foi enganada pela encenação dele.

  3. Arendt não diz que “quem não toma partido” é culpado. Num ensaio de 1964, Responsabilidade pessoal sob a ditadura, ela pergunta como alguns poucos se recusaram a colaborar. Conclui que esses não eram necessariamente heróis ou santos: eram pessoas que se perguntavam se conseguiriam viver consigo mesmas depois de fazer aquilo. Para ela, a recusa a participar era um ato moral, não uma neutralidade confortável.

  4. Os dois não são a mesma coisa. Quem decide não participar de um crime porque julgou por si mesmo está fazendo algo diferente de quem “fica em cima do muro” por medo. O vídeo, ao juntar tudo no mesmo saco, apaga essa diferença.

Talvez Arendt apoie uma parte do que o professor diz: pensar é obrigação moral. Mas ela não oferece a fórmula “neutro igual a covarde”. O que ela oferece é uma pergunta mais difícil: você pensou por conta própria antes de decidir?

 

Há ainda perguntas que o vídeo deixa no ar. Quais eram as ordens que Eichmann cumpria? E a situação de hoje se parece com aquela? Comparar uma escolha eleitoral com o regime nazista exige mostrar semelhanças concretas entre as duas situações. Sem isso, a comparação funciona só pela carga emocional que o nome traz, como vimos no episódio 3. Quem faz a comparação é quem precisa prová-la.

 

Para pensar: não tomar partido é o mesmo que deixar de pensar? Arendt falava de uma coisa ou da outra?

Eder Rizotto
Enviado por Eder Rizotto em 01/11/2026
Alterado em 01/11/2026


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Imagem de cabeçalho: raneko/flickr