


Reféns da Loucura
A taverna exalava angústia, ar de derrota, muitos corpos cansados. Um ar pesado sobrecarregava os ombros de todos lentamente no recinto. Os quatro estavam sentados em volta da mesa, porém com os ouvidos voltados para todos. Talvez entre eles se esvaísse o último resquício de paciência; estavam se tornando um toco de vela, ninguém mais os suportava.
Ouvia-se o tilintar nervoso de copos, dedos impacientes tamborilando na mesa e o ranger de dentes camuflado. Eles não falavam — atiravam palavras, atropelando-se em suas próprias vozes e angústias.
Joca empunhou a garrafa atrapalhadamente, como se fosse uma adaga, e, ao levantar o braço, bateu-a na quina da mesa. O vidro quase lascou. Seus olhos varriam cada centímetro do lugar com fúria e estupidez ao mesmo tempo.
— Fui escrachado, pisado, cuspido! O mundo quer que eu seja defenestrado! — Joca falava, salivando em todos.
— Esse planeta não quer nada com nada! — balbuciou Genésio, escarrando no chão. O rosto fazia uma careta enojada diante do piso todo úmido; balbuciou:
— Tu mesmo se afunda, Joca, seu fracote, sua mula! Fica aí choramingando e se fazendo de inocente! — Então, tentou se conter; um soluço escoou da garganta. Ele odiava quando chorava. Quis quebrar um copo na própria cara.
Marlene adentrou a pocilga vociferando; esbarrou numa mesa ocupada por pessoas estranhas — o alvo era a mesa dos seus amigos, para intervir na palestra. A força na marcha em direção a eles foi o suficiente para assustá-los.
Com os cabelos todos embaraçados e os olhos úmidos, quase ao ponto de inundar uma cidade, cravou os olhos em um ponto invisível. Seu espectro crescia enquanto ela afundava no seu próprio desequilíbrio emocional; então gritou:
— Porra! “Levantem-se, vermes!” Por que vocês permanecem como mortos-vivos esparramados nessas cadeiras imundas? Vocês estão se afogando nessa pocilga!
Ela bufava. Uma tênue linha viçosa e elástica fluía pelo canto dos lábios do lado esquerdo. Trêmula, ergueu seu punho esquerdo e esmurrou o vazio.
— Vocês são um bando de ignorantes, não sabem de nada!
Vicente, o ancião — Vicente era o mais novo, mas, devido a uma vida de uso contínuo de LSD, heroína, chá de cogumelo e dois maços de cigarro por dia, sua aparência envelhecera uns 20 anos.
Com um sorriso matreiro, puxou de dentro do casaco um charuto já muito usado — sabe-se lá por quem —, um tanto molhado.
— O duplo não existe. O duplo é apenas uma possibilidade, desdobrada no inconsciente e remetida para a consciência, gerando pavor. A pessoa surta porque não sabe a origem do medo! — Tragou uma dose descomunal do seu charuto. Os olhos pesados de insônia. — Igual aos frequentadores que chafurdam naquele recinto.
Silêncio! Um silêncio dolorido, que machucava cinicamente cada um deles; o silêncio corroía-lhes a consciência!
— Estamos numa situação delicada. A batata está assando, ou estamos fodidos? — perguntou Joca, sussurrando com os lábios sujos de vinho barato. Encarou seu reflexo no vidro de cerveja. Seus olhos se afogavam; desesperou-se; a alma buscava um refúgio seguro, buscava qualquer coisa para se ancorar, salvar sabe lá de quê. Diante do desconhecido inefável, a angústia lhe deu um empurrão, mas não chorou. Não se permitia.
Genésio achou que estava pensando, mas falou alto em bom tom:
— Por quantas vidas estivemos assim? Parecemos uma legião de idiotas! — Bufou e entornou o copo num gole, numa inocência selvagem, estúpida, porém de uma imensidão inimaginável de ansiedade, uma caneca inteira de cachaça.
— No meio de tantos deuses, não tenho nenhum. Quem me dera que um tivesse se sensibilizado, mas não; então, me digam, por que entre tantos nenhum olhou para mim? — resmungou Vicente. Homem de pouca fé.
Marlene cravou os olhos em Vicente e lhe sussurrou ao pé do ouvido:
— E se nós matarmos nosso duplo? Mas seria ele mesmo um duplo? Ou demônio? Ou uma doença, uma doença desgraçada? Um psicopata imaginário dentro do nosso corpo que se compraz com nossas tristezas? O que sobrará de nós?
Vicente soltou uma gargalhada árida, árida como um vinho tinto seco e barato, sem uma gota de humor.
— Por que a felicidade mora ao lado? Por que a grama do vizinho é mais verde? Por que olho para os lados, para cima e para baixo? Na realidade, acredito que olho para os lados, mas não vejo. Que ódio! Por que falo comigo como se houvesse muitos dentro de mim? Mas existem muitos? Por quê? Respondo a todos eles, e eles riem de mim?
Então, Joca falou para todos:
— Um túmulo vazio. Uma legião que domina, atormenta e acaricia esse corpo sempre cheio do nada, um vazio que está sempre cheio.
Ninguém respondeu. Mas queriam, desejavam e buscavam algo que os tornasse indivíduos melhores, seres que dominassem suas fantasias, sua realidade, seus desejos, seus amores e as dores inevitáveis da vida. Ficaram ali, apenas bebendo, engolindo a própria miséria.
E talvez pudessem. Pelo menos por aquela noite, num momento de lucidez, pairava sobre todos uma angústia, a dor da lucidez, que se esvaía em um momento tão curto, rápido e inefável pela eternidade dentro de cada um.
Marlene estava tranquila; não tinha nada a ver com a que entrara na pocilga. Então, com uma cordialidade inusual, pediu a atenção dos amigos e disse:
— Eu sei por que ocorrem, às vezes — em outros pode até ser constante —, esses arroubos de humor em mim, em você, em nós. É um ser que existe dentro da nossa cabeça, igual à nossa consciência; ele se chama Idelfonso.
— Sim, meus amigos, é ele com quem tenho que lidar. Quando ele quer uma coisa, ele não pede, ele vai: tem que ser agora. Quando não consegue, irrita-se de tal forma que fico irracional. É possível controlá-lo? Ele sempre vence; se não consigo o que ele quer, caio em depressão.
Marlene iria continuar quando Joca pediu a palavra e, antes de receber a licença para falar, iniciou de imediato:
— É outro nome, Marlene; o nome correto é Igoity. É ele que é irmão gêmeo da consciência. Imagina um sujeito indeciso: é esse. O pior é que, como ele fica dos dois lados para se dar bem com todo mundo, a briga é feia: consciência, Idelfonso e Igoity, os três no mesmo momento, precisando urgentemente decidir um problema. Já aconteceu de a consciência e o Idelfonso descerem o cassete no Igoity; geralmente, o que falar primeiro, a consciência aceita, e sai uma decisão moderada.
Havia um silêncio de catedral na pocilga. Todos pararam para ouvir o discurso deles — claro, não era um discurso, apenas um bate-papo entre amigos, mas até entre os cachaceiros a sabedoria reina. Palavras difíceis subentendem sabedoria; pode ser uma bobagem, mas para aquela trupe de bêbados, ali, agora, a sabedoria pedia passagem.
Vicente, o Ancião, tomou a palavra:
— Lamento informar, mas quem está — e tem alguém mesmo dentro da cabeça da gente — é o Shupherhego. Ele é o filho da consciência, não obedece nunca a ela, faz o que quer, igual a um menino mimado dessa geração Z. Nunca trabalhou, vai à escola, mas não estuda; quando briga com a professora, está sempre errado, mas a mãe não aceita e procura a diretoria e a secretaria da Educação para denunciar a professora por maus-tratos. É complicado esse Shupherhego. A mãe só o controla quando antecipa uma situação e faz por ele.
Genésio não pediu a palavra, tomou-a, agarrou-a, juntou-a ao peito e esbravejou:
— Nunca ouvi tanta bobagem! Quanta ignorância da parte de vocês, estou admirado! Como conseguiram falar tudo isso num lugar tão pequeno? Estou besta com a capacidade de vocês. Mas espera: capacidade e asneira não combinam e não caminham juntas; quem tem capacidade não faz asneira. Então... é um paradoxo às avessas. Ou não. Sim e não. Tanto faz. Ou, se vocês têm capacidade e falam asneira, logo, é um paradoxo às avessas. Certo, né?
Terêncio não conseguiu se levantar; tentou várias vezes. Salete mantinha-se quieta a olhar o teto. Agnaldo estava sentado em uma poltrona, tocava nos dedos como se estivesse contando-os. Fabiano estava de frente para o espelho, procurando por algo.
Todos os dias, durante 2 minutos, esse era o tempo em que os quatro tinham plena consciência; após esse tempo, a loucura tomava conta, de tal forma que as famílias mantinham os quatro juntos, devido à coincidência do transtorno entre eles.
As famílias contrataram uma psiquiatra e duas psicólogas; hoje, quem ouviu toda a história foi Pandora. A psicóloga só ouvia e sabia quando chegavam os minutos de plena consciência. Sempre um falava pelos quatro, de forma alternada, no dia a dia, um acordo feito por eles mesmos. Então Terêncio falou:
__ Nós ensaiamos a noite toda a cena da pocilga; Salete criou as falas, Fabiano o local, Agnaldo ficou como contrarregra e eu fiquei como corretor do texto.
__ A loucura não nos fere, não nos causa vergonha; o que nos machuca é saber que, o tempo todo, não sabemos o que fazemos, mas sabemos dos familiares que sumiram. Durante os dois minutos de consciência, lembramos de todas as pessoas que nos visitam ou dos funcionários que adentram aqui, recordamos qualquer pessoa que esteve aqui ao longo do dia. Dois minutos é um tempo muito longo, se eles dessem valor aos nossos dois minutos. A distância não nos fere, mas ser ignorados e vistos apenas como loucos nos machuca mais que uma surra a chicotadas.