Textos


12 Badaladas

 

Acordou com 12 badaladas — foram exatamente 12, nem mais nem menos —, ainda deitado de barriga para baixo, o rosto virado para o lado da janela. As cobertas estavam fora da cama; girou o corpo, colocando-se de costas, mas com o rosto virado para o lado contrário.

 

De olhos bem abertos, a secura na boca não o incomodava. Permaneceu deitado e confabulou consigo mesmo: foram 12 badaladas exatamente; não as contei, mas tenho certeza da quantidade exata. Como pode ser? Ser acordado pela sequência dos sons alternados, tudo bem; mas saber a quantidade — e sem tê-las contado —, como pode isso?

Thodhyn levantou-se no ritmo de sempre. Não foi ao banheiro; foi para a cozinha, procurou a garrafa de café e o pão. O café da manhã em sua casa não passava de café e pão com manteiga; devido aos percalços do mês, não havia manteiga, havia margarina. A xícara já estava posta na mesa, mas era uma xícara diferente — ou melhor, não era a caneca que usava todas as manhãs.

 

A margarina não estava na mesa, mas requeijão em pasta! Balançou a cabeça levemente para a direita e um pouco para baixo, com um sorriso irônico de meia-boca; correu os olhos pela sala e viu sua mãe assistindo à televisão.

 

Dona Lourdez — mulher dócil e doce como uma uva — assistia ao programa extremamente atenta. Não é que ela não tivesse percebido o filho passar pelo corredor, contornar a copa, ir à cozinha, pegar o pão — o pão que a mãe não tinha colocado à mesa como fazia desde que Thodhyn era criança; ela não viu mesmo.

 

— Meu Deus do céu! Por que 12 badaladas? Por que tinha que ser 12, demônio? — Dona Lourdez, na mesma velocidade com que se levantou, já esbravejou com o filho.

 

Thodhyn se manteve em silêncio, não por muito tempo; a surpresa da atitude da mãe o deixou em choque. A mãe nunca agira daquela forma; afinal, todas as manhãs ela fazia o café, arrumava a mesa, sempre usava a porcelana portuguesa e esperava os filhos à mesa para todos tomarem café. O pai, senhor Nycholaz, sempre sentava na ponta da mesa, voltado para a porta.

 

Pai, mãe, Thodhyn e Shamantha, sua irmã mais velha, tomaram o café — não como de costume; nessa manhã, o silêncio reinou absoluto aos berros, de forma imperativa.

Thodhyn trabalhava em um supermercado como repositor, ajudante de açougueiro e, se o movimento nos caixas estivesse muito grande, também fazia esse serviço. Terminou de tomar o café e lembrou que não tinha pedido bênção aos pais; levantou-se para ir ao banheiro, mas antes pediu bênção a eles e o tradicional bom dia a Shamantha.

Quando foi entrar no banheiro, sua irmã o puxou pela camisa bruscamente e disse, sussurrando com ódio:

 

— Tinha que ser 12 badaladas?

 

Já dentro do seu quarto, Shamantha olhou para suas unhas, que haviam agarrado o irmão na entrada do banheiro. Uma unha estava quebrada, tinha um pedacinho da pele das costas do irmão. O ódio por ver sua unha quebrada tomou conta dela; não saiu do quarto; olhou novamente a unha quebrada, tinha mais um pedacinho de pele, porém dela mesma. Shamantha tinha cravado os dez dedos das mãos no couro cabeludo, com tanta força que, anestesiada pelo ódio pelo irmão, enterrou a unha quebrada no couro cabeludo; sangrou pouco. Esse pouco foi suficiente para adormecer o ódio.

 

Não chorou, nem guardou mágoa pelo ocorrido; trocou a unha por outra postiça novinha.

Shamantha voltou a ter suas 20 unhas pretas, passou seu batom preto, depois seu lápis de olho, contornou a linha d’água, em seguida sombra da cor do batom, pegou suas pulseiras e colares pretos. Um dos dentes da frente também era de cor preta. Pegou a bolsa da mesma cor e saiu para trabalhar. Seu look para ir ao trabalho era sempre esse; chegava às 08h00 em ponto no seu consultório — era considerada uma ótima psicóloga.

 

Thodhyn, ao sair do banheiro, viu seu pai em frente à porta. Este balançou a cabeça, o filho contou quantas vezes, descansou o braço no ombro do filho e, com o olhar perdido por alguns segundos, disse:

 

— Filho, preciso usar o banheiro, agora completa a décima segunda vez.

 

O pai, senhor Nycholaz, mantinha o olhar distante. Carregava 144 meses nas costas, riscados na parede, sem saber o que era sair para trabalhar.

 

Antes de entrar no seu quarto, Thodhyn sentiu algo morno que aumentava progressivamente, a ponto de ter a sensação de um punhal penetrando até o rim direito; ao mesmo tempo, algo deslizava pelas costas — era exatamente como um fio desencapado. A sensação parou ao chegar à cintura; em seguida, percebeu que uma pontinha da calça estava úmida. Levantou a camisa e viu que esta estava com dois rasgos compridos e um filete de sangue a descer até a calça.

 

Limpou as costas e fez um curativo com esparadrapo; sabia que, quando fosse tirar, iria doer, mas, no momento, era o que tinha.

 

O supermercado não era longe de casa: cinco quadras. Virava à direita no primeiro cruzamento, seguia quatro quadras e depois virava à esquerda, e já estava no trabalho. No caminho, cruzou com três vizinhos, um de cada vez, um em cada quadra; ao chegar ao supermercado, atentou para esse detalhe: os três vizinhos — Marivaldo, Oswaldo e José Aldo — todos fizeram a mesma pergunta:

 

— 12, né?

 

Entrou indignado com a atitude dos vizinhos, bateu o ponto e, antes de ir até o depósito, o gerente lhe disse:

 

— Carregue aqueles 12 sacos de batata e coloque na calçada.

 

Quando terminou e passou pelo açougueiro, senhor Doriwaldo, este lhe disse:

— Pegue 12 traseiros de vaca no congelador e coloque 12 bifes em cada uma das 12 caixas de cada traseiro.

 

Quando terminou, percebeu: eram 12 horas em ponto! Cansado duas vezes — física e mentalmente —, não interrompeu em momento algum até aquele momento de carregar e trabalhar. Exausto e consternado com os acontecimentos, viu um banco de madeira ao seu lado. Percebeu algo inusitado: como no local havia várias lâmpadas em posições diferentes, a sombra do banco tinha 12 pés!

 

Coçou a cabeça, principalmente a parte de trás, e perguntou-se: o que está acontecendo? Pensou em sentar; entretanto, antes de alcançar o banco, o proprietário do supermercado chegou e disse a Thodhyn:

 

— Coloque aqueles 12 sacos de batata no depósito. Tem que ser agora.

O patrão sumiu na mesma velocidade da ordem. Thodhyn olhou as horas: 12h12 da tarde. Dirigiu-se para os sacos de batata com o avental de açougueiro escorrendo sangue — a cada passo, uma gota. Ao chegar aos sacos, olhou para trás e viu 12 gotas de sangue.

 

— 012, acorde, acorde, 012! Hoje é a sua transferência. Levante-se logo e não precisa tomar banho; assim que o pessoal do transporte chegar, você tem que estar pronto.

 

Dhonthy levantou-se como sempre, nem rápido nem devagar, no ritmo que sempre mantivera dentro do presídio. Trocou de roupa — uma limpa que o carcereiro deixara para ele. Olhou a cela, pedaço por pedaço, e para os próprios pés; gostou de ter feito as unhas no último banho de sol. No teto da cela havia 12 divisões feitas a lápis de cera; em cada parte, 12 capítulos, 12 versículos. O primeiro estava assim: “Quando os egípcios a virem, dirão: ‘Esta é a mulher dele’. Então me matarão, mas a você deixarão viva.”

 

O furgão prisional chegou logo. Quem conduziu Dhonthy até o veículo foi Thobias, o anão gigante — media 99 centímetros de altura. Este tivera que entrar na justiça para garantir o serviço: passara no concurso, mas o diretor se negava a aceitá-lo.

 

O anão gigante, do lado de fora da cela, pediu ao detento que colocasse os braços para fora para algemá-lo. Dhonthy agachou-se e obedeceu gentilmente; os dois se tornaram amigos ao longo dos 12 anos que Dhonthy completara naquele dia.

 

A policial que conduzia o furgão era Sarah. Foi ela que levou Dhonthy do fórum até a penitenciária quando saiu a sentença dele — outra que também era sua amiga. Sarah gostava de ouvir as histórias dos detentos durante o tempo em que os transportava de um lado para outro; Dhonthy também era igual a Sarah. Então o silêncio reinou até a chegada ao sanatório, o local que seria a morada definitiva dele. Ao chegar, o diretor, senhor Moisés, cumprimentou-o de forma amigável, como se já o tratasse como um paciente antigo.

 

A causa da transferência foi o fato de Dhonthy não querer sair da prisão. Um dia, um detento disse que ele poderia sair da cadeia antes do final da sentença dada, mas seria em condicional — talvez no final do ano. A informação da liberdade condicional chegou no dia 12 de janeiro, por meio de um detento da cela 21. A tristeza abateu-o de tal forma que os colegas de cela e de outras celas ficaram sensibilizados com aquilo.

 

No décimo segundo dia de dezembro, Dhonthy matou 12 detentos. As 11 primeiras mortes foram muito rápidas; provavelmente, esses nem sentiram dor. Jhudas — o detento que dera a notícia, a notícia falsa — recebeu de Dhonthy 12 facadas, segurando-o pelo pescoço e mantendo os olhos nos olhos de Jhudas. Após as facadas, mordeu o pescoço do mentiroso, rasgando-lhe a carótida.

 

No dia 12 de dezembro de 2012, ouvindo as 12 badaladas pela primeira vez, Dhonthy se enforcou no seu quarto de número 12, no décimo segundo dia após ter chegado ao sanatório. Em uma das mãos, tinha um papel com a seguinte anotação:

 

“Alegria nos céus: há um chamado de regozijo para os céus e para todos os que neles habitam, celebrando a expulsão do adversário do plano celestial.”

Dhonthy

Eder Rizotto
Enviado por Eder Rizotto em 24/10/2026


Comentários


Imagem de cabeçalho: raneko/flickr