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Análise do Mito de Sísifo. Camus

Ao ler Camus, comecei por uma pergunta que parece simples, mas que rapidamente se tornou mais complexa: a vida tem um sentido? Minha resposta não é afirmar que sim, nem afirmar que não. O que posso dizer é que não conheço esse sentido. E há uma diferença fundamental entre não conhecer uma coisa e afirmar que ela não existe.

Não posso transformar nossa incapacidade de encontrar uma resposta em prova de que não existe resposta. Se existe uma razão para o mundo, eu não sei qual é. Também não sei por que o mundo existe, nem de onde veio. Mas me parece difícil simplesmente aceitar que algo tenha surgido do nada. Mesmo para existir o nada, somos levados a perguntar de onde vem essa própria condição. Não sei quem ou o que estaria na origem, nem por que o mundo existiria. Portanto, não afirmo uma resposta; mantenho a pergunta aberta.

É nesse ponto que minha leitura começa a se afastar de Camus. O absurdo, para mim, não pode ser simplesmente uma propriedade do mundo. Ele aparece na relação entre aquilo que existe e a consciência que procura compreendê-lo. Se não houvesse consciência, haveria o mundo, mas não haveria alguém para perguntar por que ele existe, qual é sua razão ou por que não responde às nossas perguntas.

Essa questão me levou também à fenomenologia. Camus percebe que existe uma relação entre o homem e o mundo, e é justamente nessa relação que o absurdo aparece. Mas então surge uma dificuldade: se o absurdo depende da relação da consciência com o mundo, como podemos tratá-lo como uma característica definitiva da própria existência? Minha crítica não é afirmar simplesmente que Camus está errado, mas perguntar se há uma tensão entre sua utilização dessa estrutura relacional e sua recusa de determinadas consequências da fenomenologia.

Também comecei a questionar a ideia de que o absurdo seja necessariamente uma experiência universal e permanente. Talvez ele apareça com mais força em determinadas situações da existência. Na juventude, por exemplo, estamos ocupados com a própria vida: queremos amar, trabalhar, viajar, construir, experimentar, desejar. A morte existe, evidentemente, mas não necessariamente ocupa o centro da consciência. Com o envelhecimento, com as perdas e com a diminuição do futuro percebido, a pergunta pode adquirir outra dimensão. Nesse sentido, o absurdo pode não ser uma condição psicológica idêntica em todos os momentos da vida.

Isso não significa que o jovem seja ingênuo ou que o velho necessariamente se torne mais lúcido. Significa apenas que a posição do sujeito diante do tempo muda. A pergunta que fazemos ao mundo também muda quando muda nossa relação com a própria existência.

Foi então que comecei a desconfiar da palavra “absurdo”. Nem tudo aquilo que não pode ser explicado racionalmente é absurdo. Posso amar uma pessoa sem conseguir explicar racionalmente por que a amo. Posso gostar do sabor de uma maçã, de uma música, de uma pintura, de um esporte ou de escrever, sem conseguir apresentar uma razão objetiva que obrigue outra pessoa a sentir o mesmo. Isso não torna essas experiências absurdas. Elas podem ser irracionais no sentido de não serem completamente reduzíveis a uma explicação racional, mas não necessariamente contraditórias ou sem fundamento.

O amor é um exemplo decisivo. Se eu pudesse explicar completamente por que amo alguém, talvez a explicação não correspondesse mais à experiência do amor. Há alguma coisa no amor que permanece sem explicação. O mesmo acontece com o prazer e com a arte. Nós não precisamos conhecer inteiramente a razão pela qual alguma coisa nos dá prazer para vivê-la intensamente.

Pensei então na figura do ilusionista. As crianças podem acreditar na magia; os adultos sabem que existe um truque. Mas justamente por saber que existe um truque, continuam assistindo, porque não querem necessariamente descobrir como ele funciona. Se descobrirmos todos os mecanismos antes da apresentação, o espetáculo perde parte daquilo que o torna interessante. Há experiências que não precisam ser completamente desvendadas para serem vividas.

Talvez seja isso que aconteça com a existência. O fato de não conhecermos completamente sua razão não significa que ela seja vazia. Talvez uma parte da intensidade da vida esteja justamente no fato de não sabermos tudo. O prazer de buscar pode estar na própria busca, e não necessariamente na chegada a uma resposta definitiva.

Essa mesma questão me faz olhar com desconfiança para a ideia de que o avanço do conhecimento científico, por si só, resolveria nossas questões fundamentais. A ciência pode explicar mecanismos, ampliar nossas possibilidades e modificar profundamente nossa relação com o mundo, mas não necessariamente responde por que devemos viver, amar ou criar. Além disso, o conhecimento produzido pelos seres humanos pode ser utilizado para libertar ou para dominar. O problema, portanto, não está apenas naquilo que conseguimos conhecer, mas também naquilo que fazemos com o conhecimento. Talvez ainda não saibamos sequer quais são todas as possibilidades humanas. A técnica aumenta nosso poder, mas aumentar o poder não significa necessariamente compreender melhor a finalidade da existência.

Por isso, não quero substituir a religião por uma certeza filosófica nem Camus por outra doutrina. Minha posição é mais simples e, ao mesmo tempo, mais difícil: permanecer diante da pergunta sem inventar uma resposta que não possuo. Posso admitir a possibilidade de uma razão do mundo sem saber qual é; posso reconhecer a experiência do absurdo sem transformá-la em verdade absoluta; e posso viver intensamente sem exigir que a existência me entregue uma explicação.

Isso me levou a Nietzsche. Não o vejo simplesmente como um niilista. Há nele uma afirmação da vida que me parece diferente da atitude de Camus. A arte, a paixão, o prazer e a intensidade não precisam receber uma justificativa exterior para serem vividos. A arte, especialmente, parece mostrar que a vida pode ser afirmada sem que precisemos primeiro resolver o problema metafísico de sua finalidade.

Também percebi uma dificuldade na resposta de Camus ao absurdo. Ele propõe revolta, liberdade e paixão. Mas contra o que exatamente se revolta o homem? A revolta já é uma relação com alguma coisa. A paixão também. A liberdade também. Se a consciência se relaciona com o mundo por meio da revolta, do amor ou da paixão, então essas experiências não simplesmente eliminam o sentido: elas produzem relações que podem adquirir sentido para quem as vive.

Por isso cheguei a uma provocação: talvez o amor seja um absurdo, não porque seja vazio, mas porque não conseguimos reduzi-lo a uma explicação racional completa. O prazer também pode ser assim. A pessoa se apaixona, alguém se dedica ao esporte, à culinária, à escrita, à pintura. Em todos esses casos existe uma intensidade que não depende de uma demonstração racional de utilidade.

Mas essa ideia também me colocou diante de uma contradição. Se amo alguém e essa pessoa ama outra pessoa, o que significa amar? Posso me revoltar e tentar impedir sua escolha. Mas também posso imaginar que amar seja desejar que ela seja feliz, mesmo que sua felicidade não seja comigo. Então o amor pode conter uma contradição: querer possuir e, ao mesmo tempo, querer a liberdade daquele que se ama. Não resolvo essa contradição; ela faz parte da própria experiência que estou tentando compreender.

Da mesma maneira, comecei a pensar que talvez eu não precise que o mundo me responda. Quem disse que o mundo tem obrigação de responder às minhas perguntas? Posso perguntar por que existimos e continuar sem resposta. Posso perguntar se existe uma razão para tudo e não saber. Ainda assim, posso amar o mundo por aquilo que ele é, sem exigir dele uma explicação.

Nesse ponto, minha crítica a Camus deixa de ser simplesmente uma tentativa de provar que a vida tem sentido. Não tenho essa prova. O que questiono é o salto entre a ausência de uma resposta conhecida e a afirmação do absurdo como conclusão. Não sei se existe uma razão última. Não sei se existe um sentido. Mas também não sei se não existe.

Talvez a posição mais honesta seja permanecer nessa abertura. Buscar não porque sabemos que encontraremos, mas porque o próprio ato de buscar pode ser uma forma de viver. Amar sem exigir eternidade. Criar sem possuir uma justificativa definitiva. Apreciar o prazer sem precisar reduzi-lo a uma fórmula. Fazer perguntas mesmo sabendo que algumas talvez permaneçam sem resposta.

No fim, talvez o problema não esteja em não conhecer o sentido, mas em acreditar que só podemos viver depois de conhecê-lo. Eu não preciso resolver o mundo para amá-lo. Não preciso compreender completamente a existência para vivê-la. E não preciso transformar aquilo que permanece inexplicável em absurdo apenas porque não encontrei sua razão.

O que permanece é a pergunta, a experiência e a intensidade com que vivemos aquilo que não conseguimos explicar. Talvez seja justamente nessa tensão entre saber e não saber, entre buscar e não encontrar, entre amar e aceitar a finitude, que a vida se torna aquilo que ela é.

“Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”.

Eder Rizotto
Enviado por Eder Rizotto em 06/10/2026


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Imagem de cabeçalho: raneko/flickr