Textos


Jamelão

 

 

Tem certas circunstâncias que misturam o ridículo, o patético e o cômico ao mesmo tempo. Ainda assim, o inefável às vezes acontece: o profano e o sagrado se abraçam atrás da moita ou coisa parecida. Mas qual é a linha que separa o cômico do trágico? Essa pergunta já se tornou  um clichê intelectual travestido de originalidade no meio literário, entretanto, sempre aparece por motivo de força maior; é como a fábula do escorpião e o jacaré.

O escorpião pediu para o jacaré levá-lo até a outra margem do rio. O jacaré se recusava sem hesitação, mas algo desconhecido o impulsionava com uma excitação misteriosa, digamos, um comichão na linha da cintura. Enquanto o escorpião insistia de forma sacerdotal, o jacaré pensava, elucubrava consigo mesmo, as variáveis, então disse:

– Você vai me ferroar quando estivermos atravessando o rio.

O escorpião respondeu:

– Juro que, enquanto estiver sobre suas costas, não vou lhe ferroar, eu juro pela luz que nos alumia agora.

O jacaré concordou e deixou o escorpião subir nas suas costas e começou a atravessar o rio.

Quando estavam no meio do rio, o escorpião ferrou o jacaré com todas as suas forças; então o jacaré, com lágrimas nos olhos e as pernas desfalecendo, perguntou ao escorpião:

– Você jurou que não iria me ferroar, por que me ferrou?

– Desculpe, jacaré, mas o instinto de ferroar é mais forte do que eu.

Em algum lugar desse universo, Jamelão voltava de uma caçada de javalis selvagens com seu pai, este deixou o filho já com seus 15 anos -com essa idade, neste lugar do universo, já é um homem - carregava a espingarda - uma cartucheira calibre 12 de cano duplo e longo -, que se mantinha sempre a um passo atrás do pai.

Pedro, pai de Jamelão, é  um ser amuado, que fala pouco, mas ouve longe; quanto mais grave a situação, seus olhos descrevem detalhadamente sua irritação, assim como deve ser a solução. Sua altura não é muita, mas o suficiente para impressionar, pele clara, boca pequena semelhante à boca de siri, olhos impacientes, sempre com um chapéu que esconde toda a cabeça e escurece todo o rosto.

Os dois seguiam rumo à casa. O silêncio era ensurdecedor. O ritmo da caminhada era lento, devagar, quase parando. A distância da casa agora era de pouco mais de um dedo de prosa. Do nada surgiu um cachorro, sem cerimônia, cheirou o portador da cartucheira, mas manteve distância do pai de Jamelão. Será que o cachorro conhecia o Sr. Pedro?

Ao se aproximarem da casa, Pedro ajeitou o chapéu na cabeça; porém, antes que o chapéu descansasse na cabeça, enxugou a testa com as costas da mão. Jamelão ficou admirando o pai a se arrumar antes de chegar em casa.

A cinco passos do portão, Jamelão ultrapassou o pai e abriu o portão; com muito cuidado, levantou só um pouquinho, o suficiente pra não fazer barulho.

Assim que o pai passou pelo portão, o filho foi fechando-o lentamente, uma perna dentro, a outra fora. Antes de fechar completamente, puxou a perna que estava para fora. Algo prendeu a perna do jovem; seria o cachorro, pensou Jamelão. O que me prende pela metade? Na segunda tentativa de recolher a perna, um estouro reverberou no quarteirão todo. 

O silêncio reinava, tudo dentro da normalidade até então. O pai olhou para os pés do filho; na sequência, olhou nos olhos do filho e retornou os olhos para um único pé de Jamelão; depois, repousou o olhar nos olhos do filho. Este olhou para os pés e, na sequência, atentamente nos olhos do pai. Sem sair do lugar, tirou a espingarda do ombro esquerdo e descansou-a vagarosamente no muro; retirou a capanga com os cartuchos e deitou-os ao pé da cartucheira.

A cartucheira disparou. Contingência ou acidente? Um cartucho de calibre 12 contém aproximadamente 100 esferas minúsculas de aço; ironia ou um capricho dos deuses?  Todas as esferas atravessaram o pé de Jamelão e, ademais, o fantástico se apresentou ali, pois o pé do rapaz não sangrou; era possível ver perfeitamente os orifícios; o pé se transformou literalmente numa peneira. Peneira das mais finas!

Jamelão passou para fora, fechou o portão e saiu andando sem mancar, sem puxar a perna, andava como se nada houvesse acontecido, seguiu de cabeça erguida, com os olhos se afogando em lágrimas, não autorizou nenhuma lágrima a rolar pela face. Com o olhar fixo no horizonte, deslizou pelas ruas da cidade silenciosamente, o dia virou noite e o homem ferido pelo disparo seguiu seu caminhar indefinido em busca do horizonte que guardava no seu coração frio.

Pedro pegou a cartucheira e colocou sobre o ombro direito; no ombro esquerdo, descansou o embornal que continha os cartuchos. Passou para fora, mas não fechou o portão e seguiu normalmente em direção à mata. Sem pressa, acendeu um cigarro de palha que fizera lentamente pela manhã antes de sair para a caça com o filho.

Ao chegar à mata, não se dirigiu para o esconderijo que emboscava os javalis selvagens, permaneceu exatamente na trilha deles.

Um som lentamente foi se aproximando de Pedro, porém, a cada segundo que passava, o ruído aumentava. Um tremor de terra era perceptível ao longe. Uma poeira se adensava em direção a Pedro carregando um som mais forte, mais forte, mais forte, até que num passe de mágica, uma manada de javalis selvagens avançava em disparada na direção do pai do jovem, que se mantinha calmo e de olhos abertos. Eram milhares de javalis selvagens, com suas presas enormes como marfim.

Todos os javalis selvagens passaram por cima de Pedro. Ridículo,  patético e  cômico, pois o primeiro javali derrubou Pedro; ao passar por cima dele, o chapéu de Pedro ficou preso na cabeça do javali, que corre até hoje com chapéu de Pedro. 

 

 

Eder Rizotto
Enviado por Eder Rizotto em 08/01/2026
Alterado em 08/01/2026


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Imagem de cabeçalho: raneko/flickr