Textos


Uma Comédia Filosófica

 

Era uma vez, num universo onde a grama era verde e o céu era azul (mas não necessariamente nessa ordem, porque, afinal, quem decide? A natureza, claro!), um cidadão chamado Wanderclayson, um sujeito boa-praça, altivo e um tanto quanto chato, resolveu dar um jeito na história de Deus.

"Deus? Ah, esse Todo-poderoso!", ele pensava, "essa criatura tá sempre dando uma de 'pai de família' e 'dono do pedaço', mas, na verdade, é só um espectro que não sabe o que fazer com o universo. E ainda fica mandando a gente se comportar!"

Wanderkleyson (não só se achava um filósofo, como tinha uma certeza inabalada), então, resolveu fazer um "reboot" no divino. Pôs a ruminar possibilidades: "Se Deus é tudo, então ele é a natureza! A natureba é Deus! Deus é o meio-ambiente! Uma só coisa! É como se a gente estivesse falando do mesmo ser, só que com nomes diferentes, pegou a visão?"

E assim, nasceu o pai-eterno de Wanderkleyson, um cara bem mais cool e menos "pai-de-família, o cara das galáxias". Ele era a própria natureza, uma força bruta, semelhante a um coice de grilo, sem tempo para dramas e preces. A Natureza era pura lei física, um jogo de partículas e energia, onde tudo acontecia por necessidade saltitante, sem espaço para caprichos. Ou seja, é assim e ponto final, stop.

"O Divino não é um sujeito que fica lá em cima, mexendo nos botões do painel de controle do universo", explicava nosso pensador, "Ele é o todo em si! É como se ele fosse um grande jogo de xadrez, ele é tabuleiro, peças, jogador e até as regras, o divino, só que com regras bem mais complexas. E a gente, os oreias-secas, só pode se mover conforme as regras do jogo."

Nosso filósofo, filosofava numa praça pública.

Arnaldo, o eterno matemático cético, rondava nosso pensador e suas ideias, tinha lá suas objeções: “Então o Pai-eterno é tipo um árbitro imparcial, mas mesmo assim ele cria regras que ninguém entende? Isso parece mais um jogo fraudulento de bingo.” Wanderkleyson ria: “Meu querido, é que você nunca leu o manual de instruções das partículas. Não reclame com o Eterno, reclame com a física quântica!"

Mas, claro, nem todo mundo que estava envolta do pensador, gostou da ideia. "Deus é meu coleguinha, ele me escuta!", gritava a galera com mais de duzentos anos. "O Divino é um cara que me ama, ele me dá presentes!"

Jaqueline, Jaqueline sempre procurava confusão, adorava um debate controverso, suas conclusões, saiam de si como se fossem retiradas a fórceps, não aceitava renunciar da ideia de um Deus protetor. “Como assim Deus é a natureza? A natureza não ouve minhas orações. Ou você já viu uma tempestade esperar eu terminar meu Pai-Nosso antes de cair?”, reclamava. E seguia firme: “Se Deus me ama, ele pelo menos podia me avisar antes de soltar aquele raio no quintal da minha casa!” 

Wanderkleyson, o eremita, que teve sua fase de eremita desacompanhado, pacientemente, respondia: "Não, não, não! O Eterno não é seu amigo, ele é a própria realidade e você também boco! Ele não dá presentes, ele é a força que faz as coisas acontecerem! E a gente, meus neófitos, só pode se adaptar às regras do jogo."

Essas dúvidas e respostas, no entanto, só faziam crescer o burburinho na praça. A madrugada rasgava a noite a passos ligeiros. Enquanto uns achavam a visão de Wanderkleyson hilária, outros ficavam em dúvida se ele mesmo não era uma contradição ambulante: um filósofo que acredita que tudo já é perfeito, mas que vive tentando consertar as ideias dos outros.

E assim, o Deus de Wanderkleyson, com sua humildade, simplicidade e lógica, virou o bafafá absoluto da madrugada. Deus era o elixir para todos os problemas, desde a crise existencial até a crise do amor. "Deus é o meio-ambiente, a natureza é Deus, o Tudão, e a gente é só um detalhe" um pedacinho de cutícula num salão feminino com trezentas mulheres falando todas ao mesmo tempo. Que horror! 

Matutava a galera, "mas um detalhe importante! Não acabou ainda! Afinal, um desavisado falou atrás do muro humano que formou envolto do pensador, quem cria a natureza, Deus? 

Não, respondeu nosso pensador:

A gente, seu inocente!"

E as contradições não paravam por aí. “Se tudo é parte do Divino”, comentou Paulo, um amigo engraçadinho, este, tinha contração muscular do lábio superior, sempre contraído, a arcada dentária superior, estava sempre exposta, “então o pudim que queimei no forno ontem também é Deus? Só que ele parece bem mais infernal!” Wanderkleyson revirou os olhos e resmungou baixinho com os lábios cerrados, putaquipariu: 

“Se até o buraco negro tem o seu lugar no universo, seu pudim também tem. Aceita que dói menos.”

E, no fim das contas, o todo-poderoso de Wanderkleyson era só uma forma diferente de ver o mundo, uma forma mais descolada, mais natural, mais… bem, mais legal! Quem sabe, até mais divertida ou malvada. Afinal, quem não gosta de um bom jogo de xadrez?

Os pragmáticos de plantão estavam confusos - um comichão inesperado os afetava - .“Se Deus é a natureza, então quando plantei cebolas e nasceu cenouras, quer dizer que… Deus errou no pedido?” Wanderkleyson, já respirando com dificuldade para manter a paciência, respondeu: “Não ingênuo, quer dizer que o mundo é imprevisível. É o Divino em ação!”  

Tukchystênio pensava na hipótese de ser uma casquinha de ferida no joelho do Eterno de Wanderkleyson, Ou ficar com o Deus convencional?

Nem todo mundo engoliu a filosofia do "Divino" com facilidade. Se por um lado Wanderkleyson estava convencido da sua visão genial, outros tinham suas próprias respostas – igualmente criativas, mas cheias de contradições espirituosas.

No fim, a questão era: será que o Pai-eterno tinha realmente todas as respostas? Ou será que a humanidade já estava há séculos interpretando mal as regras do jogo?









 

 




 

Eder Rizotto
Enviado por Eder Rizotto em 05/02/2025
Alterado em 05/02/2025


Comentários


Imagem de cabeçalho: raneko/flickr