Textos


                                       Tenso

Mudou para o bairro dos Murikís numa sexta-feira, no mês de abril, não lembro o ano, mas nosso personagem principal, mora lá até hoje.

Homem sisudo, muito compenetrado em seus pensamentos, um senhor de muita paz, todavia, circunspecto, um verdadeiro fidalgo. Era uma mescla de um homem da época do império com um senhor dos anos 60.

A casa fica na Rua dos Beijos Brancos, o número não é relevante nos dias atuais. Casa muito grande para uma única pessoa: três quartos de 3x4 metros quadrados, sala, copa, cozinha, tudo espaçoso e dois quintais enormes, um na frente e outro no fundo.  A casa ocupa o centro do lote. Toda murada com muro alto.

No sábado providenciou a instalação de uma cerca elétrica, tipo concertina, com bom conhecimento em eletricidade, intensificou a corrente elétrica na cerca: um choque suficiente para causar um trauma por muitos anos no aventureiro que tentasse vencê-la.

Nosso fidalgo foi batizado na fogueira de Santo Antônio, com o nome de Amorim Amoroso. Quando já adulto, gostava tanto desse nome que mudou o nome no registro de nascimento para o de batismo de fogueira.

O bairro dos Murikís, tinha aquela coisa peçonhenta que tem vários nomes, um deles é Ladrão, vagabundo e por aí vai. Pois bem, o meliante que reinava no local era um tal de Pelado.

Pelado era a pior raça que podia ter na vida, com quinze anos de idade, não corria da polícia, afinal, nunca ia preso. Na cidade não tem o tal de reformatório para menores, aliás esses reformatórios, são verdadeiros antros de formação de ladrões.

Por que Pelado? O furtador, só andava com um calção, sem camisa, sem sapato ou chinelo, nem boné a praga usava. Havia uma regra máxima, só o Pelado podia roubar um morador novo, depois, quantos quisessem, poderiam violentar a privacidade do novo morador.

Amorim na época tinha um cachorrinho preto, todavia, parecia que era mudo, não latia! Passava quase todo o tempo dentro da casa, não importava quantas pessoas passassem pelo lado de fora da casa, o cachorrinho não latia.

O ladrão rei do bairro foi informado no sábado do novo morador. Calmamente, olhou sua agenda e marcou com letras garrafais na página da quinta-feira próxima:

Loubar o novo balliga velde do baillo. Otalio hehehe

Amoroso acordou como de costume, cedo, muito cedo, tipo as cinco da manhã.  Escovou os dentes, fez e tomou café da manhã, escovou os dentes novamente, acariciou seu companheirinho:  Barrabás, era o nome do seu cachorrinho.

Saiu as sete e meia da casa, atarefado com seus pensamentos. Amorim pensa tanto, que até conversa consigo mesmo, menos diante do espelho, acha feio pessoas que falam com elas mesmas.

O vigarista chegou nas proximidades da casa que haveria de ser roubada, por voltas das nove da manhã, subiu no telhado da casa do vizinho. Seu comparsa e braço direito, estava ao seu lado, era o Pedrada.

 Pedrada ganhou esse nome devido um fato histórico e inusitado: tentou roubar uma tenda de um cigano. Levou tanta pedrada na cabeça, nas costas, no rosto, no peito, que quando foi atendido no pronto socorro, o médico plantonista disse:

-- Como esse sujeito está vivo ainda meu Deus!

O vagabundo, rei do bairro, calculou, calculou...

-- Pedrada! É o seguinte:  vou jogar o tapete de borracha na cerca, desço o muro, me espere aqui, assim que eu achar a cópia da chave, abro o portão, depois que eu juntar tudo, lhe dou o sinal, aí você me ajudar a arrastar me espólio de roubo.

O patife jogou o tapete em cima da cerca, pulou e se equilibrou em cima do mesmo, deslizou pelo muro, ao chegar no chão, um grito foi ouvido até nos outros bairros vizinhos.

O muro estava cravejado de pregos dispostos como peça de dama, num tabuleiro. Ao bater no chão, caiu em cima de uma tábua com pregos vazados.

O arrombador desonesto, caiu com as nádegas no piso duro do quintal. Com os braços, barriga, joelhos todos cortados pelas pontas dos pregos e com uma tábua pregada nos dois calcanhares.

Pedrada não teve alternativa, acionou a polícia. Esta quando chegou, passou um rádio para o corpo de bombeiros, informando do ocorrido. Os bombeiros usaram um guindaste para penetrar na casa. Içaram o escroque todo retalhado e o conduziram o para o Santa Casa, um hospital próximo do bairro.

Amorim Amoroso, acompanhou tudo, não estava de corpo presente, mas tinha câmeras espalhadas pelo quintal, viu tudo, desde o início pelo celular. Até mesmo, quando um policial e um bombeiro, foram até o fundo da casa e o policial, batia com a mão aberta na outra mão fechada em forma de um copinho, riram à beça.

O escroque chegou traumatizado no hospital, branco como uma folha de papel. Após ser atendido, descobriu que havia trincado a última vertebra, o Cóccix, a vertebra que faz divisa com o redondo.

A turma dos direitos humanos, tomou as dores do vigarista e pediu à delegacia do menor e do adolescente que intimasse Amoroso. E assim foi feito.

Amorim não quis ser acompanhado por advogado, foi até à delegacia a pé e sozinho; quando foi questionado a respeito da armadilha que o coitadinho do menor havia caído. Opinião do pessoal dos direitos humanos: aquilo era uma emboscada!

-- Doutor Delegado, estou plantando uma parreira em volta da minha casa, não fui informado que minha casa seria assaltada por um menor. O que eu poderia fazer?

Passaram três meses sem roubo no bairro. Pelado havia sido claro com Pedrada:  ninguém rouba nenhuma casa até eu retornar!  E assim aconteceu.

Amoroso seguia sua rotina cega e santamente, acordava cedo, pá daqui pá dali, falando consigo mesmo, trabalhando, cuidando da casa, de Barrabás.  A vida seguia normalmente. Perfeita e linda.

A segunda tentativa de roubo na casa de Amorim aconteceu numa segunda-feira à tarde, lá pelas três horas. Mesmo esquema, jogou um tapete na cerca elétrica, todavia, improvisou duas latas de tinta, dessas de três litros, calçou as nos pés e desceu o muro. Quando chegou no chão, constatou que não havia um prego sequer no muro!

Olhou bem as janelas e as portas, decidiu forçar a fechadura da porta da frente.  Algo lhe dizia que as janelas têm trancas reforçadas por dentro, assim como a porta do fundo.

Com uma chave inglesa, encaixou na fechadura da porta da frente, todavia, ao tentar girar, levou um choque tão forte que caiu sentado com as costas na porta de metal. Para azar do escroque e felicidade do dono casa, o choque era programado: quinze segundos de corrente elétrica contínua, dois segundos desligado, um ciclo por tempo indeterminado.

Depois de várias sessões de choque, Pedrada, desceu do muro, tirou o seu comparsa grudado na porta, chamou os bombeiros. Estes conduziram o ladrão até o hospital, o safado chegou no hospital em pânico.

Seus lábios tremiam aceleradamente, dois dentes quebraram de tanta força que os maxilares se apertaram. As mãos fechadas, os braços e pernas todos contorcidos, o olho direito fechado e o esquerdo estava estatelado, parecia uma bola de sinuca amarela.  a língua roxa, esticada pra fora no canto direito da boca. Não gritou nem chorou hora nenhuma, mas urrava como um animal selvagem.

O biltre levou quatro meses para se recuperar. Durante esse período, era um inferno na vida da mãe e de seus irmãos: ficava deitado o tempo todo no sofá, às vezes batia na mãe por causa da mistura da janta. Um dia a mãe dele lhe disse:

-- O mundo vai te curar e educar!

O corpo de bombeiros não comunicou a polícia, o policial de plantão no hospital nem deu bola para o sofrimento do bandido; assim, os direitos humanos de nada ficaram sabendo, e a vida de Amorim seguiu na santa paz dos justos.

Dizem que honra é coisa de pessoas honestas, mas Pelado, afirmava para si e para seus comparsas:  é uma questão de honra!  Retornou pela terceira vez ao local dos crimes mal sucedidos. Entrementes, desta vez, foi calçado com uma bota de borracha e adaptou um cabo emborrachado na chave inglesa.

O espertalhão, não precisou forçar a porta, percebeu que a mesma estava aberta! Matutou bastante antes de entrar. Quando entrou, viu um livro sobre a mesa. Havia um papel dentro do livro. Descobriu que era uma bíblia e na tirinha de papel, que estava servindo de marca pagina, estava escrito:

“O ladrão vem apenas para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida e a tenham plenamente”. 10.10
Espero você no reino dos céus de braços abertos, meu filho teimoso.”

O vagabundo era um sujeito letrado, estudou até a quarta série do primário. Na verdade o empurraram até a quarta série, depois o expulsaram, fato este que foi motivo de alegria para ele.

O mão-leve foi direto para o quarto, mas acordou no hospital. Havia uma cartucheira doze milímetros cano duplo, carregada com sal grosso. O safado pisou num cordão que estava amarrado aos gatilhos da espingarda. Dois tiros foram deflagrados simultaneamente!

Todo o rosto ficou furado, parecia uma tela de peneira ou sarampo. Deu sorte! Nenhum sal nos olhos, porém, o peito e barriga estavam cravejados de sal grosso. Mas deu azar também! Dois grãos penetraram no calção, um foi no bilau e o outro no ovo esquerdo.

Passaram mais seis meses sem roubos no bairro. Abalado emocionalmente, psicologicamente, Pelado não desistiu, mesmo aterrorizado, decidiu voltar à casa de Amorim.

O desavisado, nosso bilontra espertalhão, transpôs a cerca, o muro, observou atentamente a casa, observou bem a porta da frente e percebeu que a mesma estava aberta, será que o dono esqueceu de trancar?

Com um pedaço de pau, empurrou a porta com muito cuidado e com uma lanterna, alumiou o caminho que fazia dentro da casa. Ao chegar no corredor que leva aos quartos, viu um cachorrinho. Era Barrabás. Este, ao ver o invasor, deitou no chão, depois, de barriga para cima, mexia as quatro patinhas.

O meliante não se conteve, assoviou para o animalzinho que virou e ficou de pé.  Devagar o pegou e levou o bichinho até a altura do seu rosto: Barrabás tentou lamber o nariz do invasor, Pelado aconchegou o cachorro perto do pescoço e começou alizar o dorso do cachorrinho.

De repente, sentiu algo quente a lhe escorrer do pescoço, um ardor, uma quentura sem precedentes. Percebeu que Barrabás estava com seus finos caninos cravados no seu pescoço.

Sem pensar nas consequências, o ladrão não titubeou, afastou Barrabás com todas as forças que tinha. Ao se desvencilhar dos caninos do animalzinho, rasgou a carótida, tropeçou na mesa de centro, caiu perto da porta da frente. Soltou Barrabás e correu até o muro. Escalou o mais rápido possível.

Ao ganhar a rua, sentiu uma certa fraqueza, uma bambeza nas pernas, os olhos já lhe falhavam, a visão tornou turma, a cada minuto mais e mais turva, até não conseguir ver mais nada.

Nosso ladrão trapalhão, morreu duas quadras antes de chegar ao hospital.  Perdeu praticamente todo sangue que tinha, morreu por uma dentada de um pinscher que pesava menos de oitocentas gramas.

 
Eder Rizotto
Enviado por Eder Rizotto em 02/04/2018
Alterado em 02/04/2018


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Imagem de cabeçalho: raneko/flickr